Para Edson Braga, amadurecer não significa apagar versões anteriores de nós mesmos, mas compreender erros, acolher aprendizados e continuar disponível para aquilo que a vida ainda pode construir
Amadurecer talvez não signifique abandonar aquilo que fomos para nos transformar em alguém completamente diferente. Pode representar justamente o contrário: aprender a reunir, dentro da pessoa que somos hoje, todas as versões que fizeram parte da trajetória.
Essa é a reflexão apresentada por Edson José Bandeira Braga Filho, também conhecido como Edson Braga, ao analisar como infância, juventude, erros, perdas, relações e experiências continuam participando da construção da identidade ao longo da vida.
Para Edson, existe uma ideia comum de que cada fase substitui a anterior.
A infância termina.
A juventude ocupa seu lugar.
Depois chega a maturidade.
Mas a experiência mostra uma realidade diferente.
O menino que sonhava continua presente no adulto que precisa tomar decisões difíceis.
O jovem que tinha medo de errar permanece, de alguma maneira, dentro de quem aprendeu que evitar todos os riscos também pode representar uma forma de fracasso.
O filho continua existindo dentro do pai.
O aprendiz permanece dentro de quem, anos depois, passou a ensinar.
Nesse sentido, a vida não elimina versões anteriores.
Ela as reúne.
Ninguém fica completamente para trás
Para Edson Braga, uma das características da maturidade pode estar na capacidade de olhar para versões anteriores de si mesmo com mais compreensão e menos julgamento.
É relativamente fácil observar decisões antigas utilizando a consciência adquirida anos depois.
O problema é que existe certa injustiça nesse processo.
A pessoa que tomou determinada decisão não possuía ainda todo o conhecimento que seria adquirido posteriormente.
Precisou confiar.
Errar.
Arriscar.
Perder.
Se decepcionar.
Recomeçar.
Algumas dessas experiências foram justamente aquilo que permitiu a construção da consciência atual.
Por isso, Edson José Bandeira Braga Filho considera que fazer as pazes com a própria história também significa reconhecer a importância das versões das quais talvez alguém não tenha tanto orgulho.
Elas igualmente participaram da caminhada.
A força não está em nunca ter sido quebrado
Outro ponto destacado por Edson é a maneira como lidamos com sofrimento.
Durante a juventude, existe a tendência de imaginar que uma vida bem construída deveria evitar perdas e decepções.
Tentamos controlar resultados.
Prever problemas.
Evitar despedidas.
Criar defesas.
Como se fosse possível atravessar toda a existência sem experimentar situações capazes de nos quebrar emocionalmente.
Isso não acontece.
Pessoas partem.
Alguns sonhos não se realizam.
Relacionamentos mudam.
Respostas chegam tarde.
Outras simplesmente não chegam.
Para Edson Braga, a força humana talvez não esteja em nunca ter sido quebrado.
Está em descobrir que é possível reconstruir-se.
O coração não precisa ser compreendido como uma peça de cristal que perde definitivamente sua forma quando sofre uma ruptura.
Pode ser visto como uma obra em constante restauração.
Algumas dores, apesar de indesejadas, podem abrir espaço para compreensões que anteriormente não existiam.
A dor não precisa ter a última palavra
Reconhecer que determinadas experiências podem produzir aprendizado não significa romantizar sofrimento.
Para Edson José Bandeira Braga Filho, ninguém precisa desejar a dor para crescer.
A questão é outra.
Quando ela chega, precisa necessariamente decidir o restante da história?
A perda pode produzir ensinamentos.
Uma despedida pode revelar capacidades desconhecidas.
Uma dificuldade pode obrigar alguém a descobrir recursos internos que nunca havia utilizado.
A experiência permanece dolorosa.
Mas o sofrimento não precisa possuir autoridade permanente sobre o futuro.
Essa ideia se conecta a outra percepção importante: muitas vezes, parte da dor não está somente naquilo que aconteceu, mas na resistência contínua à realidade de que aquilo realmente aconteceu.
Não existe negociação com o passado
É comum continuar discutindo mentalmente com situações encerradas.
Revisitar conversas.
Imaginar respostas diferentes.
Desejar que determinada escolha não tivesse sido feita.
Perguntar repetidamente por que algo aconteceu.
Segundo Edson Braga, esse movimento pode consumir uma quantidade significativa de energia porque tenta modificar algo que já não pode ser alterado.
O passado existe.
Aceitá-lo não significa concordar com tudo aquilo que aconteceu.
Também não significa considerar determinadas situações justas.
Aceitação significa reconhecer o ponto real de onde a caminhada precisa continuar.
A pergunta deixa então de ser apenas:
“Por que isso aconteceu?”
E passa a incluir:
“O que farei agora com aquilo que aconteceu?”
Para Edson José Bandeira Braga Filho, essa mudança permite recuperar a capacidade de escolha.
O tempo não serve apenas para envelhecer
O tempo costuma ser observado principalmente como aquilo que retira alguma coisa.
Os anos passam.
O corpo muda.
Os filhos crescem.
Os pais envelhecem.
Momentos considerados permanentes revelam que eram temporários.
Mas Edson Braga propõe outra interpretação.
O tempo também revela.
Com os anos, algumas ilusões perdem força.
Certas urgências deixam de parecer tão importantes.
Orgulhos podem diminuir.
Discussões que anteriormente pareciam indispensáveis deixam de merecer tanta energia.
A pessoa pode descobrir que não precisa responder a todas as provocações.
Não precisa vencer todas as discussões.
Também não precisa ser compreendida por todos.
Para Edson, uma das liberdades possíveis da maturidade aparece quando alguém consegue decepcionar determinadas expectativas externas sem, por isso, decepcionar aquilo que considera essencial em si mesmo.
Envelhecer e amadurecer não são a mesma coisa
O passar dos anos, entretanto, não garante transformação.
Todas as pessoas envelhecem.
Nem todas amadurecem da mesma maneira.
Alguém pode acumular décadas e continuar repetindo os mesmos padrões.
Pode carregar ressentimentos antigos.
Defender as mesmas certezas.
Reproduzir continuamente as mesmas feridas.
Por isso, Edson José Bandeira Braga Filho considera que sabedoria não deveria ser medida simplesmente pelo número de experiências vividas.
O que importa também é aquilo que permitimos que essas experiências façam conosco.
A mesma dificuldade pode produzir amargura em uma pessoa e compaixão em outra.
Uma perda pode fechar alguém emocionalmente ou aprofundar sua compreensão sobre a vida.
O sucesso pode alimentar arrogância ou gerar gratidão.
A experiência, isoladamente, não transforma.
A maneira como ela é compreendida e incorporada pode transformar.
Também somos feitos das pessoas que encontramos
Segundo Edson Braga, a identidade não é formada exclusivamente pelas diferentes versões de nós mesmos.
Também carregamos partes das pessoas que atravessaram nossa história.
Frases de pais.
Gestos dos avós.
Conselhos de amigos.
Ensinamentos de professores.
Experiências profissionais.
Palavras oferecidas em momentos importantes.
Até relações difíceis podem deixar aprendizados que acabam participando da construção de quem alguém se torna.
Talvez nenhuma pessoa atravesse completamente nossa vida sem deixar alguma coisa.
E o contrário também é verdadeiro.
Mesmo sem perceber, deixamos partes de nós naqueles com quem convivemos.
Isso modifica também a ideia de legado.
O legado começa antes da nossa partida
Legado costuma ser associado àquilo que permanece depois que alguém morre.
Para Edson José Bandeira Braga Filho, ele começa muito antes.
Acontece enquanto estamos atravessando a vida de outras pessoas.
Na forma como um pai trata um filho.
Na maneira como um líder desenvolve alguém.
Em uma conversa com um amigo.
Na oportunidade oferecida.
No exemplo transmitido.
No modo como reagimos quando alguém falha.
Cada interação pode deixar alguma marca.
Nesse sentido, a construção do legado não depende apenas de grandes patrimônios, empresas ou realizações.
Ele também está presente naquilo que as pessoas carregam conosco e depois de nós.
Fazer as pazes com a própria história
Para Edson Braga, talvez exista uma liberdade que surja quando uma pessoa consegue olhar para trás sem vergonha, para dentro sem tanto medo e para frente sem ansiedade excessiva.
Não significa que tudo foi resolvido.
Também não significa acreditar que todos os capítulos foram bons.
Existem erros.
Perdas.
Decisões que seriam diferentes hoje.
Momentos que talvez alguém preferisse não ter vivido.
Mas todos passaram a fazer parte da história.
Fazer as pazes com o passado não significa aprová-lo integralmente.
Significa deixar de exigir que a trajetória tivesse sido perfeita para reconhecer seu valor.
Ainda estamos sendo escritos
Outro risco da maturidade está em acreditar que os capítulos mais importantes já aconteceram.
Com o tempo, é comum falar mais sobre aquilo que já foi construído.
Empresas.
Viagens.
Conquistas.
Pessoas conhecidas.
Experiências.
Mas Edson José Bandeira Braga Filho rejeita a ideia de que determinada idade transforme a vida apenas em memória.
Enquanto alguém está vivo, ainda existe possibilidade de transformação.
Uma conversa inesperada pode mudar uma visão.
Uma nova amizade pode alterar um caminho.
Um projeto pode despertar novamente a curiosidade.
Uma viagem pode produzir uma descoberta.
Um recomeço pode modificar completamente a percepção sobre os anos anteriores.
Para Edson Braga, enquanto estamos vivos, ainda estamos nos tornando.
Somos a soma de muitas versões
O menino não desaparece completamente.
O jovem permanece.
O filho continua presente mesmo depois que se torna pai.
O aprendiz continua existindo naquele que adquiriu experiência.
Nenhuma dessas versões precisa governar sozinha.
Mas todas participam da identidade.
Para Edson José Bandeira Braga Filho, amadurecer talvez signifique justamente conseguir ouvir essas diferentes partes sem permanecer prisioneiro de nenhuma delas.
Ao final da trajetória, ninguém leva apenas anos.
Leva escolhas.
Encontros.
Perdões.
Erros.
Abraços.
Recomeços.
Pessoas.
Sonhos realizados e outros que permaneceram apenas como possibilidades.
Levamos aquilo que fomos deixando nos outros e aquilo que os outros deixaram em nós.
Talvez amadurecer não seja compreender definitivamente toda a própria história.
Pode ser algo mais simples e, ao mesmo tempo, mais difícil:
parar de lutar contra os capítulos que já foram escritos e continuar disponível para o próximo.
Porque fazer as pazes com o passado não significa viver olhando para trás.
Significa poder olhar para frente sem precisar fugir daquilo que veio antes.
Talvez essa seja uma das grandes lições do tempo.
A vida não substitui completamente quem fomos.
Ela reúne todas essas versões dentro de quem ainda estamos nos tornando.
E, enquanto houver vida, a história continua aberta.

